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Segunda-feira, Janeiro 09, 2012

uma lembrança para Godot



ressaca


para dois seres sensíveis e machucados meias palavras não cabem, então a tarde caiu leve, nos embriagamos com Manoel de Barros e sorrimos. a noite correu falante, pouco álcool e muita poesia, para dois poetas o bastante para se compreenderem. a madrugada reservou um banho de piscina e a lembrança de tantos erros, copos vazios e almas cheias. ao amanhecer chuva forte e janelas abertas, Neruda e Pessoa molhados no chão. palavras encharcadas e inteiras.


suor


acordei mais cedo que o de costume, aliás não dormi mais que duas horas... nessas fases de pouco sono e literatura transbordando pelos poros, lembro-me de que matéria somos feitos. tenho amado você nesses dias. não há porque esconder o sentimento que salta aos olhos e enriquece as palavras.



vapor


hoje senti sua falta de uma maneira que jamais senti. seu silêncio acompanha-me nos banhos matinais que batizo com seu nome, quanta ternura posso encontrar num banho morno? sim, pois o que ferve não é a água e o que fere não é o não dito. o espelho estava embaçado e tirei a toalha que me envolvia para me ver melhor, nunca vi meus olhos tão opacos como hoje.




insônia


não dividi meus segredos, pois repartir tira-me o sono. não direi desaguei meus engodos e que em algum momento abri meu coração. nunca achei justo sujar águas claras em falácias pernoitadas. foi-se o tempo que dava espaço para estrangeiros, que apenas esquentam minha cama e na manhã seguinte abandonam minha morada. mas saiba que me dói ainda a lembrança de vê-lo sair. foi único que partiu deixando-me suas lágrimas em meus olhos.



paramare


não farão falta as flores de plástico que deixara sobre o balcão, mas faltou a noite passada. o relógio batia insistente a melodia que já sabemos de cor. pobre a moça que encontrá-las e enfeitar com elas o coração. a jardineira daqui não é obstáculo, nem foi colocada ali como um adorno de janela, amado. é só um lembrete de como tudo é breve e belo, um suspiro perfumado de vida, paraísos artificiais. não arrancaria nenhuma delas para você, trazem a essência rara das horas que perco ao regá-las. tempo que não temos para o agora.





alento

as as coisas têm nos afastado, não é querido? o coração está bem, mas não consigo parar de fumar, o que é ruim. mas o que não é? estou amando, como sempre... coração vagabundo, como diz Caetano! me divirto com meus mancos, como sempre e a saudade de você é enorme! tem o dom de me reanimar! meu texto de Kerouac está aqui, crescendo e crescendo, como um diário de bordo mal escrito e pouco reverberado. saber de você é uma tábua de salvação, um arquipélago baldio nessa vastidão de mar revolto! pesa-me a idade e os sorrisos já estão gastos quase tanto como a pele, já não tenho o mesmo visco. ando até meio aborrecida, pois as coisas, quando convalescemos, se tornam mais lentas e monótonas. mas não me queixo a vida é gueixa querendo se dar!



inércia

decerto a mansidão do deserto se curve à imensidão das águas, mas enquanto não, seco. é o calo em desalinho, forma obscura de um tempo vão. onde não há amar ou fúria, onde se cala a devassidão. esse seu rosto cálido, descrito em conta de arrimo é só a fuga de um querer pobre que não quer cura. decreto é a luxúria de se entregar a outros corpos enquanto só se deseja a solidão.



ainda o café

acusa-me, amor! sim, admito, sou leviana, pueril e me prendo ao que seja leve e despretensioso. se uma xícara de chá esfria tão rápido e alguns depois de frios não conservam o sabor e a fragrância, posso ser assim. não pedirei desculpas por meus erros, ou pelo que me marca única, somos assim vãos. nada me vale mais que viver, o que me move é lembrar depois. serei uma velha chata e enquanto isso não acontece, tomo o café quente e amargo que me serviu a pouco. sua essência ainda permanecerá, pelo menos por algum tempo.



horizontes

o certo é que sou alucinada, pois há tons e tons. e onde uns distinguem apenas o branco e o negro, o contraste do papel com as palavras de poeta qualquer, eu vejo cores. renega o que sente, esse rubor nas vísceras, essa paixão desesperada que não ousa relatar e faz-se míope. deixo que furem-me os olhos mas não nego a fúria, dessa que se enxerga vermelho em manchetes de crimes passionais, amarelo em classificados de domingo e verde no fundo de amanheceres quadrados dentro de garrafas vazias de bebida.

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